
ESCREVER A VIDA

Escrito por Isabela Martins
A vida é boa, bela e surpreendentemente curiosa, o problema é que temos o costume de ligar o bom ao fácil, o belo ao perceptível e o curioso aos grandes fenômenos. A vida é esplêndida em seus detalhes mais sutis e só os de olhos e coração sensíveis são capazes de notar a grandiosidade que ela carrega nas suas minuciosidades.
Com o passar dos tempos, fomos atrelando o significado da vida a coisas passageiras, pequenas e egoístas até chegarmos ao ponto de a palavra vida não carregar mais significado algum, a não ser luta, dificuldade e dor. A vida deixou de ser vista como a bela e delicada flor que é feita para ser contemplada e não tocada de forma bruta agressiva, pois ao mínimo toque feri-se gravemente. Como o bruto e precioso diamante enterrado na terra que precisamente guarda seu valor. Como a pura e doce água dos rios que saciam a sede e refrescam a todo e qualquer que dela se aproximar. Como a fonte de tudo que existe.
A verdade é que fizemos da vida o maior comércio de todos os tempos e o preço é um vil metal, pois esquecemo-nos que a vida tem valor e não preço. Infelizmente só nos lembramos que a vida tem valor quando ela se perde ou se acaba, antes disso, é apenas mais um peixe posto a venda na banca.
A verdade sobre a realidade é dolorosa e angustiante, e por vezes me pergunto o porquê fui encarregada da missão de ver essa dura verdade e ser capaz de descrevê-la em precisas palavras, pois dói e muito. A cada palavra que redijo é como se uma faca se cravasse em meu peito e, enquanto sangro e choro, escrevo mais um parágrafo. Ainda que com dores, preciso escrever, é como se fosse a necessidade de respirar submersa em profundas águas. Respiro e sinto as águas entrarem fazendo o peito arder, escrevo e sinto a dura verdade da realidade esfaquear meu coração. Mas o que posso eu fazer? Se calo-me, sufoco-me. Se escrevo, sangro, mas ao fim é como chegar a superfície das águas, respiro aliviada por finalmente ter alcançado ar puro.
Enquanto escrevia mais este texto, o café esfriou, as lágrimas caíram e perdi as contas de quantas vezes o peito apertou. Contudo, agora, respiro aliviada.
Ouça a canção "Comptine d'un autre été, l'après-midi" de Yann Tiersen


