
TORTA DE MAÇÃ
Por esses dias, a memória de você tomou conta dos meus pensamentos e confesso que já fazia um tempo que isso não acontecia. Um baú de lembranças foi aberto quando encontrei sua camisa azul esquecida no fundo do meu guarda-roupa e me arrebatou para o doce passado que vivemos.
Lembrei-me dos sonhos que construímos, dos projetos que elaboramos, das viagens que fizemos e do jeito que ficávamos deitados na rede da varanda nos domingos a tarde. Lembrei de como você conseguia ser brincalhão, criativo, inconsequente e imprevisível ao mesmo tempo que era pensativo, sério e observador, o paradoxo perfeito.
Se eu fechar os olhos, ainda posso ter o vislumbre perfeito de você sentado junto a janela da sala, escrevendo enquanto tomava chá de hortelã sob a luz do pôr do sol e o silêncio era preenchido por jazz dos anos 20. Essa visão era minha obra de arte preferida, um quadro que não foi pintado por nenhum mortal, a perfeição que nenhum artista em vida alcançou, a cena composta por nada mais nada menos que você. Assim como as batidas do seu coração eram minha melodia favorita acompanhada da extraordinária canção que era sua voz. Sinfonia perfeita que nem Beethoven, com todo talento e sensibilidade musical, foi capaz de compor.
Ainda com os meus olhos fechados, posso contemplar você me observando e rabiscando palavras com um sorriso de canto nos lábios. Posso ver você me olhando profundamente enquanto lhe conto uma história, totalmente desligado do que falo e inteiramente compenetrado em mim e somente em mim.
Sempre amei o jeito que o mundo girava quando eu estava com você. Como as horas tornavam-se meros números sem importância alguma, como tudo ganhava mais cor e mais vida quando visto através dos seus belos olhos caramelos. Eu conseguia amar mais a vida quando a enxergava da sua perspectiva, era fantástico.
...
De repente, todas essas lembranças foram se dissipando como a neblina ao raiar do Sol...
Você foi ficando distante...
Tudo ficou confuso, sem nexo, sem ligação. Tudo parecia peças soltas e impossíveis de serem encaixadas entre si...
As lembranças tornaram-se vazias...
Consigo apenas ouvir ao longe a sua voz, mas é difícil decodificar o que você fala...
- Este não sou eu! Por que você me pinta assim? - consigo entender, finalmente, o que você fala.
Essas palavras se assemelharam a um soco no estômago: dolorido e nauseante. Outras memórias vieram à tona, mas não eram boas, nem doces, nem amadas ou queridas. Elas me machucavam, cortavam-me ao meio, arrancavam meu coração do peito e o deixava sangrar na minha frente.
O dia que você foi embora com tanto cansaço, tão enfadado e com tanta raiva. O dia que você não aguentou mais...
- Do quê você está falando, meu bem? - eu pergunto, sem entender o motivo da sua pergunta.
Outro soco no estômago vem quando você grita...
- JÁ CHEGA!
...
Eu queria saber em que ponto da nossa história eu entrei sozinha nesse conto de fadas. Onde foi que eu encontrei essa fenda para o "mundo do faz de conta que acontece"? Quando foi que eu abri o guarda-roupa encantado e entrei em Nárnia? Em que buraco eu caí e dei de cara no "País das Maravilhas"?
Eu realmente não sei como ou porquê comecei a fantasiar tanto. Será que foi quando nossas opiniões divergiram pela primeira vez? Ou quando eu me senti tão insegura em amar alguém real e achei melhor amar alguém criado por mim mesma? Quando? Será que foi o medo me dominando e me fazendo criar escudos e muralhas?
Mais um soco no estômago me atinge quando recordo que você odiava chá de hortelã e amava, na verdade, chocolate quente. Você nunca gostou de jazz dos anos 20, nem mesmo de jazz você gostava. Não sabia quem era esse que ocupava o seu lugar e nem mesmo como eu o projetei tão perfeitamente em todas as recordações.
Minha mente me pregou peças dignas da Broadway e merecedoras do Oscar. Fez-me perder a sanidade e o meu amor. Mas... será que eu te amei? Não, eu não te amei. Eu amei a versão que eu criei de você.
Eu amei um personagem.
Eu amei uma miragem.
Eu amei um desejo.
Eu amei uma expectativa.
Mas você, eu nunca amei e você sabia disso e foi embora.
Agora eu me sinto nocauteada pelas duras verdades. Permaneço absorta no meu próprio âmago contemplando todas as mentiras se dissolverem e ainda tentando entender como pude ser tão cruel com uma outra pessoa ao ponto de repugnar sua verdadeira identidade e amar perdidamente a minha própria projeção dela.
O forno apita informando que a torta de maçã está pronta e eu devo retira-la de lá antes que ela passe do ponto.Guardei sua camisa azul e então lembrei de algo que eu não criei, não fantasiei, porque você mesmo me disse, você verdade...
Você amava torta de maçã.
Dedico este conto à minha amiga Lívia Rodrigues.


